OPINIÃO – A primeira impressão nem sempre importa

Entre idas e vindas, mais uma vez, cá estou. A bola vai rolar e a gente se encontra por aqui pra trocar algumas figurinhas. Via de regra, o tal do espaço de fala é bem importante. De minha parte, sigo na equipe de esportes da Rádio Cariri 101.1 FM, com uma nova missão para 2020, sendo o repórter responsável pela cobertura diária do Campinense – aliás, modéstia à parte, bom deixar claro desde já que fui o único presente em todas as atividades do rubro-negro que a imprensa teve acesso até aqui. No rádio, meu espaço de fala é mais informativo. Aqui no PBEsportes, portanto, a informação sempre estará em evidência, mas, de minha parte, sob uma perspectiva mais opinativa, com mais reflexões. 

 

Dado este pontapé inicial, deparamo-nos, de cara, com mais um Clássico dos Maiorais, o quadrigentésimo oitavo da história. Independentemente dos números e com todo o respeito que a eles cabe, esta coluna é destinada a pensar no futuro. Campinense e Treze entram em campo nesta terça-feira para disputa do Troféu Lourdes Ramalho, homenagem extremamente feliz a quem tanto contribuiu para com a cena artística-cultural, mas cuja real finalidade mira basicamente o incremento financeiro para o início da temporada. Importante salientar que a estrutura administrativa dos dois clubes de Campina hoje depende quase que exclusivamente da venda de ingressos e colaboração de abnegados, realidade que precisa mudar, mas isso é conversa para um outro momento. O fato é que o Clássico tornou-se uma alternativa necessária dada a delicadeza da conjuntura monetária de ambas as equipes. 

 

Não deixa de ser um caminho mais fácil, porém, como tudo, há um risco. Na prática, será o primeiro amistoso dos dois times na temporada. Nos jogos-treino, o Treze venceu o Sport Manguape por quatro a um, numa atividade sem presença da imprensa e torcida no PV, enquanto o Campinense perdeu para o Náutico de Lagoa Seca por um a zero no Titão, cobrando ingresso e tudo. O saldo seria inconclusivo, não fosse a pressão adicional que recaiu sobre o rubro-negro. Chegou, portanto, a verdadeira hora da primeira impressão. 

 

Já pensando dentro das quatro linhas, é possível termos uma ideia do que pode ser visto. Em se tratando de elenco, o time do Treze tem mais rodagem. São peças conhecidas para quem acompanha minimamente o futebol além dos grandes centros. Aliás, muito me agrada ver  alguns nomes virem jogar na Paraíba. Imagino que ao longo da temporada, o time base deve ser formado por Jeferson no gol, que tem reflexo acima da média debaixo das traves, Gustavo na direita, Breno Calixto e Nilson Jr como dupla de zaga e Gilmar na esquerda completando a linha defensiva. No setor, destaca-se o bom poderio ofensivo dos laterais e a qualidade de Nilson Jr, que fecha muito bem o lado esquerdo. Mais à frente, Robson é o cão de guarda que dá segurança, inclusive para as subidas dos laterais. Fico pensando se teremos Dedé e Patrick atuando juntos. O primeiro com certeza figura no time titular e sabemos da qualidade para fazer o time jogar, ligando defesa e ataque. Já o segundo é uma solução muito interessante, porque além do poder de marcação tem facilidade de jogar pelo lado esquerdo, permitindo avanços mais constantes do Gilmar. Na frente, a principal incógnita é a chegada do Moisés. Habilidoso e de técnica aguçada, será uma grande contratação, na minha opinião. Isso, claro, se chegar. Até lá, a pulga mora atrás da orelha até o desembarque do atleta, que ainda não se apresentou. Se confirmado, será a principal peça de criatividade, com a vantagem de poder atuar mais centralizado ou aberto pela esquerda. Frontini, pela experiência e capacidade ofensiva indiscutível, é a referência de ataque. Aliás, Moisés e Frontini atuaram juntos no Vila Nova/GO, entre 2015 e 16 e marcaram juntos 35 gols. Números que animam. A peça que falta, nesse primeiro momento fica entre Léo Bahia ou Caxito. Se jogar Moisés no meio, o bom finalizador Léo é uma opção como segundo atacante, vindo de trás. Se Moisés abrir na esquerda, Caxito pode jogar do lado oposto. Pra mim, num campo bem teórico, o time do Treze se encaixa muito bem. Pegada, marcação, consistência, poder de criação e, principalmente, um time que pode extrair o melhor dos seus atletas. Ilustro: Frontini, com seus 1,88m de altura é um ótimo cabeceador, e tanto Gustavo como Gilmar, além de atacarem bem, encontram nas figuras de Nilson Jr, Patrick, Robson e Dedé a cobertura. Dá pra entender? É notório que as peças para a composição do elenco foram muito bem pensadas e o técnico Celso Teixeira tem uma boa equipe em mãos. A priori, um time mais fácil de prever e projetar, mas longe de ser previsível e, como frisei, isso é uma ideia, estamos no campo teórico. Na prática pode ser bem diferente.

 

Já o Campinense ainda precisa se provar. A derrota contra o Náutico do Retiro, queira ou não, pesa negativamente e ter um Clássico dos Maiorais na sequência para limpar a primeira impressão abaixo das expectativas gera uma pressão desnecessária neste início dos trabalhos. Ainda sobre o jogo-treino, falo com a propriedade de quem foi testemunha ocular do espetáculo: o resultado e a atuação, por si só, são inconclusivos. Não dá pra dizer, por enquanto, que está tudo errado. O que se pode dizer é que poderia ter havido mais cuidado com a escolha dos compromissos da pré-temporada. Treze e Perilima, por exemplo, também se movimentaram contra clubes amadores, mas fecharam a atividade para torcida e imprensa. Foram precavidos. O Campinense não só tornou o evento público, como cobrou ingressos. Virou um tiro no pé.  Mas os pés que importam são os de dentro de campo, e neste caso, Oliveira Canindé têm à disposição jovens valores, num plantel com média de 25 anos de idade. De diferente, a experiência de um atleta de forte simpatia com o clube: o atacante Fábio Júnior. À propósito, sobre o cantor, cabe uma reflexão à parte. Pelo que observei nos treinamentos, uma surpresa bastante positiva. Aos 37 anos de idade, estar longe do futebol profissional desde 2012 pesa, mas trata-se de um jogador diferenciado que pode somar. Discorreremos a respeito em um momento mais oportuno. Sobre a equipe, Canindé ainda busca o ajuste ideal. De goleiros está bem servido, contando com Pantera, João Manoel e Adilson Júnior, sendo o último, para mim, o favorito à camisa um. Na linha defensiva, quarteto formado por Igor na direita, Uesles, Alex Maranhão e Matheus Camargo na esquerda. Na lateral, a presença de Camargo, zagueiro de origem, eleva a média de altura dentre os defensores, traz poder de marcação e possibilita um balanço – mudança de posições – permitindo uma variação tática mais abrangente, com flutuação entre três ou quatro defensores na primeira linha. No meio de campo, Canindé admite buscar soluções. Na ótica do treinador, Peu ou Gabriel Vieira, dois bons volantes, têm características diferentes e não podem jogar juntos porque não atacam tanto e isso comprometeria a criação da equipe. Robertinho surge como primeira opção para formar dupla com um dos dois, mas não é tão agudo ofensivamente quando o comandante gostaria. Romário Becker deve ser o principal articulador e Vinícius Vargas, que se lesionou na primeira semana de trabalhos, pode ganhar espaço. Atuando do lado esquerdo, Matheus Gonçalves agrada nos treinamentos e tem potencial. Rafael Ibiapino e Tchê Tchê são opções de velocidade do lado direito, mas Canindé também pode optar por deslocar Becker ou Vargas para o flanco e atuar com dois atacantes de finalização: Caíque e Fábio Júnior.

 

Ambos os clubes estão em formação e precisam de ajustes. Alguns mais pontuais, outros mais complexos. O fato é que um revés no Clássico pode pôr em cheque todo o planejamento da temporada. De antemão, natural que o torcedor mire o resultado, ainda mais em se tratando de um Treze versus Campinense, mas as comissões técnicas e, em especial, os dirigentes precisam observar o que de fato é relevante: o desempenho. A primeira impressão nem sempre importa. Estamos no começo, ainda que para o texto seja o fim. 

 

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