SAUDADES II

Todos nós sabemos que a vida é uma dinâmica e que os seus partícipes vivem constantemente evoluindo e fazendo uso das novas tecnologias que transformam os costumes, a forma de viver e de agir. Todavia, costumes e modas do passado sempre nos deixaram um certo saudosismo e no futebol isso também se acentua, principalmente naquelas pessoas que ultrapassaram os sessenta anos de idade.

Eu particularmente recordo com um forte saudosismo os uniformes grossos, com gola e sem propaganda comercial que os nossos times utilizavam no passado. Havia uma beleza inigualável em sua textura, cor e desenho naqueles calções, camisas e meiões.

Os placares, que não eram eletrônicos, possuíam o nome fixo do clube da casa, um X e a expressão visitante, sendo manuseados por um funcionário do estádio, muitas das vezes se utilizando de uma escada. No antigo estádio José Américo de Almeida, o campo do Boi Só, constava permanentemente no placar as palavras Botafogo X Visitante, localizado embaixo das cabines de imprensa.

Outra coisa que recordo muito era a abertura dos portões do campo quando faltavam vinte minutos para encerrar o jogo, proporcionando uma rápida e grande alegria para aqueles torcedores desprovidos do dinheiro para comprar ingresso. Eles entravam correndo e se agarravam nos alambrados do campo, aplaudindo os seus ídolos naqueles últimos minutos que pra eles eram eternizados.

As partidas preliminares, ou esfria sol, eram disputadas por nossas agremiações amadoras nos mostrando os novos talentos que estavam em busca de um espaço em um clube profissional. Ao final da partida, os jogadores juvenis passavam na arquibancada com a bandeira do clube estendida para os torcedores ali depositarem algum trocado que seria utilizado no transporte deles.

Naquela saudosa época, os jogadores demoravam um bom período vestindo a mesma camisa de um clube, o que servia para ocorrer uma maior identificação dele com a torcida, com a cidade,  e com a sociedade de um modo geral. Era muito gratificante passear na tradicional Festa das Neves e encontrar os nossos ídolos ali se divertindo um pouco.

Jogadores como Leonardo, Chico Ramalho, Hélio, Chico Alicate e Dé, os três primeiros do Santos de Tereré, os dois últimos do Auto Esporte, semanalmente eram vistos batendo peladas na beira-mar da linda praia de Tambaú. Aliás, os nossos clubes faziam atividades físicas nas douradas areias da praia do Cabo Branco, local onde o nosso poeta José Américo de Almeida fazia moradia.

A gente ficava a tarde toda no campo comendo amendoim, chupando laranja, vaiando o adversário e aplaudindo o nosso time de coração. As figuras folclóricas estavam sempre presentes e alegrando os torcedores. Tinha um funcionário do Botafogo, salvo engano de nome Ademir Guerra, que mesmo com um defeito físico realizava uma volta olímpica correndo com a bandeira do belo estendida. Seu Pedro assistia ao jogo em pé, andando, ao lado do alambrado, portando um enorme rádio ao ouvido e gritando desesperadamente. Dona Dionísia comparecia com os sapatos, roupas, óculos, unhas, bolsa e pulseiras impecavelmente nas cores preta e branca.

Assim eram as nossas belas tardes de domingo, sentados nas arquibancadas do Estádio Leonardo Vinagre da Silveira, a popular “Graça”, ou no Estádio José Américo de Almeida, o popular “Olímpico do Boi Só”, com o rádio de pilha sintonizado na potente Rádio Tabajara e assistindo o disputadíssimo e histórico futebol paraibano.

Torcida paraibana, eu era feliz e não sabia.

  • Já começamos a planejar o 3º Encontro de Desportistas Paraibanos, que será realizado na última sexta-feira do mês de maio.

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