Futebol no pico do Jabre

Sertão é teste de fogo. É sobrevivência em um ambiente que, de acordo com à sazonalidade, pode ir de hostil a paraíso, em que o básico supre todas as necessidades de uma vida minimalista. Fazer o simples para manutenção de uma vida sem luxos, mas isenta de privações. O sítio do meu avô, em Patos, era assim. A maior fonte de riqueza vinha de um rio temporário, que passava bem próximo.

A mobília era antiga e sem conforto. Quem se importava? O chão, após o almoço, no calor causticante, equilibrava a temperatura corpórea, enquanto as crianças aguardavam o sol baixar, para cumprir a agenda do dia. Nem sempre a paciência permitia que esse intervalo fosse cumprido. Banho no rio, mesmo com a água quente, ignorando os riscos e alertas dos mais velhos, sobre uma possível enfermidade posterior e futebol na caatinga no pingo do suor do meio dia. Traves de madeira, uma longa formação rochosa sob a areia fina. Este era o nosso estádio.

Perpétuo Correia Lima, o Péto, é considerado por muitos torcedores e pela crônica esportiva local, como o maior jogador da história de Cajazeiras. Antonio Marques da Silva Mariz, foi advogado, promotor de justiça e político. Prefeito de Sousa, deputado federal por quatro mandatos, senador e governador da Paraíba. José Cavalcanti da Silva era escritor, professor de história, deputado estadual e prefeito de Patos. Estes três homens tiveram seus nomes imortalizados em uma homenagem fincada no árido e fértil solo sertanejo, nas estacas, fundações, arquibancadas, gramados amarelados e esverdeados e nas traves, que já presenciaram tantos momentos de glória. A placa na entrada mostra para as atuais e vindouras gerações que os nomes escolhidos não foram por acaso.

De tão corriqueiro, falamos repetidas vezes nos estádios e esquecemos de quem deu nome a eles. Quatro títulos estaduais já foram comemorados nestas arenas raiz. Já se vão dez anos sem conquistas desta natureza, mas algo de diferente, sempre aguarda pelos visitantes distraídos. Apesar de o discurso cautelar de medida, ser praxe, geralmente Treze e Campinense caem na armadilha. Acredito que não há teste mais eficaz para saber se um time está pronto para ser campeão, do que vencer nestes três santuários do cangaço esportivo. Parece que lá o tempo não se rendeu à modernidade. Em dias de jogos importantes, Péto ainda faz o aquecimento às 15h, O governador é Antônio. A Paraíba é quem diz: Ronaldo , Humberto e Mariz. E o prefeito se chama José Cavalcanti. Escondam as bolas, trabalhem no vestiário dos visitantes, não se preocupem com a qualidade do gramado, mas sobretudo, joguem aquele futebol de outrora. Mostrem do que são capazes.

Façam equipes competitivas, gastando menos. Quem sabe, uma vez perdida, quando os poderosos vacilarem, farão história novamente. Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa, Sertão de lampiões e marias bonitas, de secas severas e invernos generosos, do Rio da Cruz e do Açude de Jatobá. Quem é que manda no Maxixe? Terra de contrastes, que atrai olhares de admiração. Fazer muito, com poucos recursos. Ir no ponto nevrálgico. Ser pobre e ser rico ao mesmo tempo, como Seu Basílio e Dona Luísa.

Nunca subestimem a força de um sertanejo. Eles têm suas próprias razões para fazerem a escolha certa entre sobreviver e prosperar. Lá, Galo e Raposa, podem até conviver. Porém, em ambiente um pouco separados, por motivos óbvios. Os maiorais precisam mostrar que têm condições para superar os filhos da Morada do Sol, com sua eterna habilidade ao volante, sempre dispostos a subir para a próxima serra rumo ao ápice que é o Pico do Jabre, o lugar mais alto do pódio paraibano.

 

 

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