Para não dizer que não falei do pano de ferida

“Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Saiba eu com que te ocupas e saberei também no que te poderás tornar”. (Johann Goethe.)

No longínquo ano de 1988 eu ingressei na academia de polícia civil da Paraíba para frequentar o curso de delegado de polícia estadual. Duas disciplinas logo me chamaram a atenção: medicina legal, que eu já conhecia da faculdade de direito, e investigação policial, esta última era uma novidade que nos fazia pesquisar, como um arqueólogo, investigando fatos pretéritos para elucidar posteriormente os crimes. Uma verdadeira viagem utilizando conhecimentos empíricos e científicos.

O nosso professor de investigação policial, um calejado e experiente delegado, em suas abalizadas aulas usava sempre a expressão “ladrão de pano de ferida”, como forma de mostrar a torpeza, infâmia, periculosidade e desvio de caráter de determinados delinquentes que cometiam furtos, roubos, falsificações e estelionatos.

Em uma aula bastante participativa, para matar a curiosidade de todos, eu perguntei ao mestre “qual o real significado da frase ladrão de pano de ferida”. Ele, solícito e sorridente, assim me respondeu: “ladrão de pano de ferida é aquele ser ignóbil, delinquente contumaz capaz de roubar até mesmo o pano sujo, imundo, melado de pus que cobre as feridas da perna de pobres criaturas portadoras de mazelas crônicas, como a lepra e a erisipela e que serve para afastar as moscas”. Ou seja, um ser desprovido dos mínimos requisitos humanos e cristãos.

Eu e meus companheiros de sala de aula nunca esquecemos daquela definição macabra que iria nos acompanhar por toda a nossa vida profissional até a nossa merecida aposentadoria!

Eis que passadas várias décadas daquela saudosa aula, assisto perplexo na Rede Globo, precisamente no programa esporte espetacular, em cadeia nacional, uma reportagem mostrando que altos funcionários da Federação Paraibana de Futebol, pasmem, receberam indevidamente o auxílio emergencial do governo federal destinado a amparar milhões de irmãos nossos em situação de fome, miséria, penúria e mortes impostas por uma pandemia que vem há meses castigando os cinco continentes.

A minha mente, como se fosse uma máquina do tempo, retirou-me do sofá de casa e me transportou para a sala de aula onde o mestre diariamente falava aquela expressão “ladrão de pano de ferida”. Em seguida imaginei perplexo como dirigentes da entidade máxima do nosso futebol foram capazes de retirar 600 reais da boca de crianças doentes e famintas, sem um teto, sem afeto e sem perspectiva, abandonadas e esquecidas por todos, menos pelo Grande Arquiteto do Universo.

Estariam eles enquadrados como aqueles famigerados “ladrões de pano de ferida” que tanto escutei na Acadepol? Pena que aquele mestre já partiu para um mundo melhor do que este e não pode me responder novamente como no passado.

Afinal, quem convidou essas pessoas para compor os altos e relevantes cargos da entidade? Por qual motivo elas foram convidadas? Quais foram os critérios observados? Elas são de confiança da presidência da FPF? Mesmo depois deste escândalo elas serão mantidas na administração da FPF? O nosso futebol continuará sendo manchete negativa em rede nacional?

Estranhamos o silêncio das associações de classe, dos clubes, enfim de todos aqueles que tem uma importante parcela no futebol paraibano e que, presumidamente, torcem por verdadeiras e efetivas mudanças em nosso futebol.
Basta de discursos vazios e notas explicativas.

Finalizando, pergunto ao dileto leitor se essas pessoas envolvidas nesse escândalo possuem idoneidade para registrar e transferir atletas, organizar e administrar a lisura das competições, gerir e administrar o dinheiro e o patrimônio da Federação Paraibana de Futebol? Sinceramente, eu não posso responder objetivamente ou subjetivamente a estas perguntas, mas, por precaução e por não portar pano de ferida nas pernas, guardarei a minha carteira, o meu relógio e o aparelho celular.

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