OPINIÃO – Transmissões clubísticas ou clubistas?

Sejamos bem-vindos à era das transmissões clubísticas! Ou seriam clubistas? Publicada há exatamente um mês, a Medida Provisória 984/2020, também conhecida como MP do Futebol, abre um novo leque de possibilidades para clubes e conglomerados de comunicação.

De antemão, é necessário que se diga: por melhor e mais bem-intencionada que seja, criticamente falando é muito difícil dissociá-la de um ato político. Isso porque uma Medida Provisória, por essência e como o próprio nome sugere, é um recurso a ser utilizado provisoriamente e em caráter de urgência. Política à parte: modificar as regras dos direitos de transmissão de partidas durante uma pandemia é, de fato, uma decisão urgente? Posto isso e ignorando qualquer tipo de partidarismo, vamos em frente.

O fato é que a novidade modifica, pelo menos parcial e temporariamente, a forma como o torcedor consome o futebol no Brasil. Aquele velho horário fixo e tão questionado de transmissões às 21h30 das quartas-feiras e às 16h do domingo pode estar com dias contados. O que não se pode, porém, é decretar o fim imediato do formato porque a TV Globo ainda tem contrato vigente com boa parte das equipes da elite do futebol brasileiro.

É um mundo novo e será necessário que os clubes saibam escolher a forma de transmissão mais adequada para cada realidade. As novas possibilidades envolvem desde transmissões em TV Aberta à plataformas fechadas de streaming ao melhor estilo pagar para ver. Caberá aos clubes e aos respectivos Departamentos de Comunicação e Marketing compreender a melhor forma de fazê-lo com qualidade, para que a exploração propicie retorno financeiro. Com a restrição de público nos estádios, pode ser a chance para que o futebol finalmente seja encarado como um produto. Isso, pelo menos, em terras paraibanas.

Neste primeiro momento, tivemos as mais variadas experiências. Transmissões exclusivamente no YouTube, compartilhada entre YouTube e TV Aberta e tentativas de cobrança para acompanhar a transmissão. Sem nos aprofundarmos propriamente nos valores arrecadados, o Flamengo/RJ nos deu os melhores exemplos de como isso pode funcionar – e de como não.

É importante destacar que a audiência é um indicativo importante para a arrecadação de um clube de futebol. Via de regra, parte desse segmento gira em torno de publicidade. Quanto maior a audiência, maior será a exposição de determinada marca e consequentemente maior será o valor cobrado para expô-la, mais receita o clube terá e assim por diante.

A primeira transmissão do Mengão, contra o Boavista/RJ, foi considerada um sucesso, teve mais de 2,1 milhões de acessos simultâneos e hoje conta com 12 milhões de visualizações. No jogo seguinte, contra o Volta Redonda/RJ, optou-se por cobrar ingressos virtuais e migrou para a plataforma MyCujoo, deu tudo errado, voltaram pro YouTube e mesmo assim alcançou pico de 1,5 milhão de espectadores, totalizando mais de 9,6 milhões de acessos até hoje. No jogo do título contra o Fluminense/RJ, com transmissão compartilhada com o SBT, a FlaTV alcançou 8,3 milhões de visualizações. Porém, de acordo com o Ibope, apenas no Rio de Janeiro, o SBT alcançou média de 26,2 pontos, onde cada ponto equivale à 47.454 domicílios, que representam, portanto, aproximadamente 1,2 milhão de aparelhos ligados. Como disse, isso apenas no Rio de Janeiro, enquanto os números do YouTube são universais. Diga o que quiser: as transmissões em TV Aberta ainda possuem forte impacto nos lares brasileiros.

À propósito, é necessário observar que os números e analisá-los em contexto. Isoladamente, são números e mais números. Também cabe lembrar que a TV Globo oferece um pacote bem mais complexo quando se trata da entrega de conteúdo esportivo, que encontra na transmissão ao vivo a cereja do bolo mas que tem por trás de tudo isso uma estrutura mais elaborada. Ou o GloboEsporte, o portal ou o programa diário, encontram concorrência à altura? E o Esporte Espetacular? E os cavalinhos do Fantástico? E os canais SporTV? Não é só uma transmissão ao vivo. E tampouco quero fazer aqui uma defesa à TV Globo. A quebra do monopólio é benéfica, desde que estratégias sejam desenvolvidas a fim de atender demandas do consumo e se convertam em receita. Tudo isso precisa ser pensado.

Aqui é importante fugirmos rapidamente da temática principal para que se faça uma ponderação. Nunca é demais lembrar que enquanto todos os canais especializados na cobertura esportiva no Brasil e em Portugal falavam do namoro entre Jorge Jesus e o Benfica, a FlaTV não questionou o treinador em momento algum. Transmissões clubísticas são e sempre serão clubistas, com variados níveis de radicalismo. Estarão sempre a serviço do clube.

Voltando ao que falávamos e trazendo para a nossa realidade, já havíamos observado as transmissões feitas em outros estados, especialmente a partir do Flamengo/RJ. Parecia o Brasil em relação à pandemia. Sabíamos os riscos e o que poderia acontecer. Vale salientar que outros clubes paraibanos haviam feito transmissões anteriormente, mas no que tange ao “pós-MP”, o Treze foi pioneiro no jogo-treino com algumas polêmicas pouco repercutidas e que já caíram no esquecimento. Afinal, foi a TV13, canal oficial do Galo no YouTube, quem fez a transmissão que também teve avaliação positiva com mais de 21 mil visualizações. Apesar de positivos a nível local, são números muitíssimo distantes em relação ao Flamengo/RJ. Por incrível que pareça, é necessário dizer: nem tudo que funciona lá, funcionará aqui.

Na última quinta-feira, 16, foi a vez do Botafogo/PB fazer sua estreia. De forma inovadora, apresentou o aplicativo BeloPlay, cobrou R$ 19,90 para o acesso e permitiu gratuidade aos sócios-torcedores adimplentes, numa tentativa de alavancar ainda mais o projeto que conta com mais de 4 mil adesões e que diante das dificuldades em decorrência da pandemia sofre com alto índice de inadimplência. Toda ousadia tem seu risco. Com problemas técnicos diante da oscilação na qualidade da internet, a transmissão acabou sendo liberada no YouTube em mais da metade da partida. Mesmo com muitas críticas, apresentou números interessantes com pico aproximado de 10 mil acessos simultâneos e mais de 59 mil visualizações ao todo, mas vai precisar provar ao torcedor e aos parceiros que o modelo funciona.

Agora, para a rodada do final de semana, a tendência parece ter se consolidado com duas transmissões em TV Aberta. A Tambaú, afiliada SBT na Paraíba, transmitirá Nacional de Patos e Treze neste sábado, com retransmissão pela TV Borborema em Campina Grande e região. Ou seja, a partida terá alcance estadual em TV Aberta, além do próprio YouTube. No domingo, a partida entre Campinense e Atlético de Cajazeiras será televisionada pela TV Itararé, afiliada da TV Cultura. O jogo entre Sousa e Botafogo, também no domingo, será exibido em plataforma online mediante pagamento de R$ 21,90.

O que parece ser novidade na Paraíba é comum em outros centros a partir de emissoras da mesma bandeira. Enquanto as afiliadas ao SBT no Nordeste transmitem a Copa do Nordeste com resultados mais que satisfatórios em audiência, a Rede Cultura, afiliada da TV Cultura no Pará, transmite o Campeonato Paraense desde 2009. Significa dizer que espaço na grade das emissoras existe. Falta tornar a transmissão rentável. A MP pode vir a ser este facilitador.

Destaque-se que durante a semana, vários clubes do país assinaram manifesto em apoio à MP, incluindo o Botafogo/PB, juntamente aos demais clubes da Copa do Nordeste. Em nota, solicitam a conversão imediata em lei. Para que uma Medida Provisória seja convertida em lei, é preciso que seja votada pelo congresso dentro de 120 dias – dos quais 30 já se passaram. Por ora, estamos longe de estabelecer uma situação definitiva. Até lá, tudo pode acontecer. Quer tenha efeito ou quer não, o debate está aberto e longe de um fim.

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