OPINIÃO – Pra sonhar, é preciso manter os pés no chão

Pelo visto, guardei todas as minhas impressões sobre o Campinense para externá-los de uma só vez. Depois de acompanhar aos amistosos contra Central e Jaciobá em Campina Grande, o jogo-treino contra a Picuiense no Renatão e a estreia na Série D contra o América de Natal, já podemos traçar melhor um panorama do que se pode esperar o rubro-negro na competição nacional. Então, se prepara que lá vem textão. 

Nos primeiros amigáveis e declarações do treinador Givanildo Sales, ficou claro para mim que o rubro-negro adotaria uma postura reativa e teria um formato bem definido: um esquema tático com três zagueiros e algumas variações, de mentalidade defensiva com transições rápidas. De antemão, destaque-se: esse formato necessita, sobretudo, de treino.

Foto: Samy Oliveira

Após atuações interessantes – ou nem tanto, como no jogo-treino contra a Picuiense -, o verdadeiro teste de fogo foi contra o América, que, em tese, deve ser o adversário mais complicado nessa primeira fase da Série D. O resultado foi mais que satisfatório. Um ponto fora de casa que empolga, mas não ilude. Apesar de mostrar um caminho, precisa de ajustes para crescer na competição. Mais que aspectos positivos, propicia a observação dos pontos negativos para que sejam corrigidos, coisas que talvez fossem encobertas em caso de vitória.

Tendo em conta um time base jogando prioritariamente num 3-5-2 com Waldson no gol; Cláudio Baiano, Anderson Schmoeller e Rômulo formando a primeira linha; Travassos (Murici) na direita, Júnior Gaúcho e Pedro Victor (Caio Breno) no meio e Fabinho na esquerda; Echeverría ou Allef Diego mais à frente, Ibiapino flutuando e Fábio Júnior na referência, ponderemos: 

Um bom time começa por um bom goleiro. Waldson e Wellington, mostram que podem assumir a titularidade. Waldson parece ser o preferido. De fato, acho que ele tem reflexo mais apurado. Entretanto, entre amistosos e estreia, notei insegurança em jogadas aéreas e uso dos pés e falta de atenção em saídas de bola. Wellington é mais regular. Na minha opinião, o que os difere é que por ter mais reflexo, Waldson tende a defender as bolas mais difíceis. Porém, precisa estar mais atento. Se der brecha, Wellington vai estar pronto para assumir a titularidade.

O conjunto defensivo se mostrou organizado. Cláudio Baiano e Anderson Schmoeller transmitem segurança. Júnior Gaúcho é peça chave, pela versatilidade que permite variações táticas e boa cobertura dos avanços dos alas. Murici chegou como preferido na disputa à titularidade na direita, mas Travassos subiu de rendimento. Do outro lado, Fabinho até então pouco tinha mostrado nos amistosos, fez um partidaço contra o América/RN, apoiando sempre que possível e bem no desarme e recomposição, foi, na minha opinião, o principal destaque do rubro-negro na estreia.

A posição que nesse primeiro momento merece mais atenção: o segundo volante. A vaga seria de Renato Cruz, que se lesionou durante a intertemporada e ainda aprimora a parte física. Pedro Victor vem agradando ao comandante. É jovem, promissor, tem qualidade técnica, bom posicionamento e não se esconde do jogo. Contra o América/RN não foi bem, tanto que acabou substituído no intervalo. Aparentou estar nervoso e perdido taticamente, além de erros de passes cruciais nas saídas de bola, o que é natural pela pouca idade e pressão da estreia. É preciso, porém, encontrar o equilíbrio entre ter paciência para deixar o menino jogar e não colocar em risco o desempenho do conjunto. Caio Breno entrou bem e conseguiu encaixar os passes que Pedro Victor errou, mas pesa contra si não ser um jogador de condução. Funcionou bem contra o América, mas vai chegar o momento em que a equipe vai precisar de mais ímpeto ofensivo. Caso não vá ao mercado, Kiko Alagoano pode ser uma opção.

Foto: Samy Oliveira

Mais à frente, o titular, Echeverría, ficou de fora acometido por Covid-19. Allef Diego me agrada pela movimentação e pode fazer frente ao paraguaio. No ataque, Ibipiano no melhor momento da carreira e Fábio Júnior, motivado e cada vez melhor fisicamente, me agradam. Respeitem essa dupla. Jobson corre por fora. E aliás, corre muito. Não está na forma ideal mas mostra muita vontade. Caso se mantenha focado, agrega demais quando melhor condicionado.

Contra o time potiguar, a proposta de jogo do rubro-negro era clara: primeiro defender, depois atacar. Em alguns momentos, o Campinense tinha uma linha defensiva com até 5 atletas. O América/RN se lançou ao ataque e não conseguiu furar o setor defensivo do time cartola, muito bem postado, que se aproveitava dos espaços cedidos para contra-atacar em transições rápidas. É um ponto positivo. Entretanto, é preciso que se leve em conta dois fatores: a maioria dos gramados não tem a mesma qualidade da Arena das Dunas; e a maioria dos adversários não vai jogar tão ofensivamente. Quando o Campinense foi testado contra uma equipe que se fechou num num campo de jogo não tão bom, neste caso o Renatão no jogo-treino contra a Picuiense, o rubro-negro encontrou dificuldades na criação. É parâmetro? Não necessariamente, mas é um fato que não se pode descartar.

Por fim, não subestimem a dificuldade da Série D. Gosto do exemplo do Red Bull Brasil. Com estrutura e aporte financeiro, foi mais fácil comprar um time e ser campeão da Série B do que ascender de divisão gradualmente. No grupo A3, além do América/RN, o Campinense irá enfrentar o Salgueiro/PE, não apenas o atual campeão pernambucano, mas simplesmente o primeiro campeão pernambucano do interior em 105 edições do estadual; o Globo/RN, que começou mostrando as garras pra cima do Atlético, em Cajazeiras; o próprio Atlético de Cajazeiras que tem um trabalho de continuidade que merece respeito; o Afogados da Ingazeira, que sofreu desmanche após chegar à terceira fase da Copa do Brasil mas deve ter bala na agulha; O Floresta/CE, que conta com boa organização e tem o gabaritado Leston Júnior no comando técnico; além do Guarany de Sobral que costuma ser forte sob seus domínios. Não é um grupo fácil.

O discurso em torno do acesso como objetivo central é uníssono. O início do rubro-negro se mostra animador. O caminho é longo e pra sonhar, é preciso manter os pés no chão.

 

 

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