OPINIÃO – A romantização do tradicionalismo no futebol

Desde que futebol é futebol, times de menor expressão vencem equipes mais tradicionais. O que seria a tradição, afinal? A tradição é determinante para o resultado final de uma partida?

Pois bem: Tradição. Esta bela palavra proveniente do latim, que significa passar adiante; propagar de geração para geração; hábito ou costume adquirido; resultado de experiências já vividas. 

No futebol, time tradicional é uma equipe com passado glorioso, títulos conquistados, torcida expressiva e, pressupõe-se por isso, ser este mais forte que equipes de menos história, por assim dizer, e isso faria do mais tradicional o favorito às grandes conquistas. Quando estes times se confrontam e a equipe dita menor se sobressai, dá-se o nome de zebra.

O filme “Verão de 92” conta a história da conquista da Euro 92 pela Dinamarca. Imagem: Reprodução

A tal da famosa zebra não é lá algo propriamente incomum no mundo da bola. Algumas delas, como a Dinamarca campeã da Eurocopa em 1992, se tornam filmes. O que dizer do Leicester, campeão inglês em 2015-16, desbancando os gigantes do chamado big six? E Santo André e Paulista, nas Copas do Brasil em 2004 e 2005?  

Pois bem, é provável que boa parte dos torcedores não admitam e/ou concordem: os Maiorais já foram zebras. Num passado recente, até. Ou o Treze era favorito a chegar nas quartas de final da Copa do Brasil em 2005, deixando times como Coritiba e São Caetano pelo caminho? E o Campinense campeão da Copa do Nordeste em 2013, ultrapassando Sport e Fortaleza? Observem: não há desonra alguma nisso. Ambas as equipes eram competitivas e alcançaram estes feitos por mérito. Nem por isso as campanhas deixaram de surpreender. Tudo depende do referencial.

Observando sob recortes estaduais, vemos a ascensão de clubes menos expressivos, em meio ao ostracismo de equipes mais tradicionais. No Rio Grande do Norte, por exemplo,  o Alecrim, fundado em 1915 e terceiro maior campeão potiguar, vive dias difíceis na segunda divisão estadual desde 2018, ao tempo em que o Globo, fundado em 2012, fica no top 4 no estadual desde 2014, sempre participando de alguma divisão do Campeonato Brasileiro com destaque para o vice da D em 2017, disputou duas Copas do Nordeste e quatro Copas do Brasil. 

Em outros lugares, em níveis diferentes, acontece o mesmo. No Ceará, o centenário América Football Club é o quarto clube que mais disputou o Campeonato Cearense,  campeão em 1935 e 1966, está afastado das atividades profissionais há algumas temporadas, enquanto o Floresta, que compete oficialmente desde 2015, chegou à Copa do Brasil em 2018 e ao mata-mata do acesso à Série C em 2019. 

Em Pernambuco, o América Futebol Clube também é mais que centenário, surgiu em 1914, atualmente na Série A2 do estadual, vê equipes emergentes como o Afogados, de 2013, e Retrô, em 2016, conquistando seu lugar ao sol.

Na Paraíba, existe movimento similar ainda que discreto, com as crescentes do CSP e da Perilima, numa visão mais voltada à formação de atletas, enquanto o Auto Esporte, seis vezes campeão estadual e primeiro clube paraibano a disputar uma competição nacional, vive momentos de instabilidade.

Foto: Daniel Lins

Via de regra, salvo raras exceções, as recém-fundadas equipes emergentes passam por um modelo de gestão que prioriza a formação ou negociação de atletas, planejamento financeiro, investimento em estrutura e divisões de base, com olhar atento aos novos talentos. Os resultados dentro de campo passam a ser uma consequência da boa gestão fora dele e não a finalidade central. Ao contrário de muitos dos ditos clubes tradicionais, que movidos à passionalidade e pressão, muitas vezes priorizam o imediatismo em detrimento de um planejamento a longo prazo, pondo em risco a saúde financeira da agremiação. E, muitas das vezes, sob a justificativa de que “um clube dessa grandeza precisa ser sempre competitivo”. O torcedor, igualmente imediatista, concorda e está feita a bola de neve.

Aliás, a pressão por resultados talvez seja um fator determinante. Alguns investidores optam por voltarem seus esforços à fundação de um clube de zero, do que investir em equipes dita grandes, teoricamente já consolidadas, que trazem consigo opiniões divergentes entre torcedores e contas nem sempre equilibradas, além da pressão por resultados já mencionada.

Inclusive, temos histórico na Paraíba. O ano era 1976 e a Desportiva Borborema conquistava o vice-campeonato Paraibano. O clube foi fundado menos de um ano antes, em 11 de outubro de 1975, por antigos dirigentes do Campinense, basicamente para rivalizar com os maiorais. No ano seguinte, 77, a equipe já pediu afastamento das competições. Não havia tradicionalismo. Mas havia gestão. E a gestão trouxe resultado.

Foto: Daniel Lins

O fato é que o futebol se faz de gestão. Há o fator sobrenatural, o peso da camisa e as variáveis do jogo. A bola na trave que não entra, o passe milimetricamente errado, o descuido defensivo. Mas boa parte do que acontece dentro de campo é reflexo do que acontece fora dele. É preciso merecer.

Tradicionalismo, de certo modo, é saudosismo. E até fez bem à mística do futebol. É manter viva a memória do que um dia foi bom. Porém, que não necessariamente seja bom na atualidade. Ao passado, respeito. Ao presente, trabalho. Quando a bola rola, são onze contra onze, independentemente de qual camisa vistam. Romantismo ou polêmica: Será mesmo que a tradição entra em campo? 

 

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