A Bola

Até o final da década de 1960 existia na área periférica de João Pessoa muitos times de futebol que jogavam sem chuteiras, embora usassem padrões de camisas e calções. Era a verdadeira pelada. As bolas utilizadas eram de borracha. Chuteiras e bolas de couro eram artigos de luxo fora do alcance da rapaziada que participava dessas atividades. Os atletas eram sub 18. No Bairro dos Novais tinham diversos desses times. Um deles era o Ypiranga, que usava camisas verdes e calções brancos. O escudo era um “Y” vermelho, dentro de um círculo branco. Lá eu era o four back.


Na manhã do dia 5 de dezembro de 1965, um domingo, os craques do Ypiranga viveram um momento muito especial. Antes do horário habitual a turma já estava reunida no conhecido Campo do Esporte da Chã de Oitizeiro, localizado onde anos depois foi edificada a Igreja Mãe dos Pobres, no Jardim Planalto, que na época era uma área deserta e coberta por um resquício da mata atlântica. Saindo do Bairro dos Novais para chegar lá se passava por uma estreita vereda em meio ao matagal.
Era um campo grande, plano e todo gramado. Diziam que as traves tinham as dimensões oficiais. As linhas laterais eram rentes ao matagal onde era comum a bola cair e desaparecer.
O adversário era o Fluminense, da Cidade dos Funcionários, conjunto habitacional inaugurado poucos anos antes. Era um time dos irmãos Narciso e Nerivaldo, filhos de um funcionário público ali residente. O time era integrado pela meninada daquele bairro.
Enquanto o time adversário não chegava, fizemos um circulo e ficamos fazendo um controle de bola. Cada uma tentava fazer uma embaixadinha, mas tinha dificuldades com o peso da bola. De vez em quando um pegava a bola e sai correndo pra longe e da lá dava um chutão em nossa direção, simulado um tiro de meta ou um uma cobrança de escanteio. A empolgação era geral.
Os caras chegaram. Entramos em campo na maior expectativa. Meu companheiro de zaga era o Center half Jaime, um hábil rebatedor e temido nas bolas divididas. A nossa missão, nada fácil, era marcar Chico, o Center four do Fluminense, e que anos depois se tornou Chico Matemático, o maior artilheiro de todos os tempos do Botafogo.
Na primeira rebatida de Jaime, a bola caiu no matagal e foi uma correria do nosso time para acha-la.
Quando terminou o jogo, Doidinho, o nosso goleiro, fez carreira pra pegar a bola que estava com um cara do Fluminense no outro lado do campo. Botou a pelota debaixo do braço e voltou para o nosso campo, onde continuamos na brincadeira de fazer o controle de bola. Já era quase meio dia.
Perdemos por dois a zero. Gols de Chico.
Mas o placar não nos interessava. A maior atração do dia era a inauguração de uma bola de couro, drible, nº 5, comprada com uma cota feita pelo nosso time, na Loja de Ignácio Vinagre, na Rua Maciel Pinheiro, esquina com a Rua Barrão do Triunfo. Para nós, começava o fim dos tempos das bolas de borracha.

* Este artigo foi escrito pelo amigo João Batista de Lima, Coronel PM/PB, um dos protagonistas da estória acima narrada.

Foto: google

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