VOLTA, QUANDO PUDER

Passar a madrugada riscando com caneta BIC, uma camisa velha para tentar deixá-la parecida com o uniforme do time de coração. Esquentar uma faca até ela ficar assustadoramente vermelha. Escondido dos pais, realizar um procedimento cirúrgico na bola Gandula, através do enxerto com um pedaço de outro balão de couro. Juntar a mesada escassa para comprar uma FIPPBOL nas Lojas Brasileiras.

Aproveitar cada instante com sua nova aquisição preciosa, até chegar em casa uma tarde e saber que o vizinho, Abim, a estourou no ferro da trave, no campo do Santa Cruz. Lá também, dar o maior pique da vida, depois de fazer um montinho artilheiro e provocar uma tempestade de areia dentro do ônibus que passava às três da tarde. Lá se foi a pelota do amigo Péricles e o policial de olho era o combustível motivacional.

Ser perseguido pela Kombi do SOS Criança, na década de 1990, por jogar com os amigos na Casa de Saúde Doutor Francisco Brasileiro. Por quê? Ter um campo, um espaço, cenário, tablado, pronto para espetáculos em tardes de sábados e domingos infinitas e não poder usá-lo? Ir à pé de casa para o Tamborzão, percorrendo quase toda a avenida Assis Chateaubriand, treinar e depois voltar caminhando. Cansaço, fadiga? Quando é o próximo treino, mesmo? Machucar o joelho mais de dez vezes e insistir em prolongar a carreira. Campo de areia do Parque da Criança, Amigão, Vila Olímpica Plínio Lemos, campo do quartel da Palmeira, campo do SAMU, “Centro de Treinamento” do Leonel, campo do Olaria, Estadual da Prata, campo do esgoto no Alto Branco, gramado e ginásio da UFCG e UEPB, Colégio Polivalente, Pio XI, CAD, quadra, ginásio, society, poeirão…

Na falta de espaço disponível, durante uma procissão, que tal jogar no calçamento mesmo? E a pirâmide do Parque do Povo? Foi feita para o Racha da Foice. Igreja dos Mórmons também tinha peleja. A quadra deveria ser um “chama”. Atrativo para catequizar. Só não pode falar palavrão, nem tirar a camisa. “Toca esse negócio”! Apanhar da mãe, por ter desobedecido, sair na rua, organizar a pelada, voltar sujo.

No final das contas valia a pena. Custo-benefício. Ter no currículo a irresponsabilidade de ter largado o filho, que não parava quieto, no banco de reservas do Ernani Sátyro, jogar de olho na bola e ao mesmo tempo sem perdê-lo de vista. Tomar cotovelada, cravar a chuteira na coxa de zagueiro, fazer gols, ser fominha, enfrentar Treze e Campinense. A gloriosa Tokker comprada em 1998, por dez reais, ao colega de Bafanas Futebol Clube – Homem-Fera, ainda está guardada. Vez por outra sai da inatividade. Ficar olhando de longe a briga generalizada, por não ter provocado a confusão. Quem chutou, pega! A bola caiu no canal de Bodocongó. E lá vamos nós…

Tomar chuva na cara, sentar em arquibancada quente, enfrentar fila para comprar ingresso, se jogar no chão quando atiraram pedra no vidro do ônibus. Voltar caminhando pela Vigário Calixto.Quase ser acertado por um meteorito desferido pela torcida do CRB.Foram incontáveis quartas-feiras e domingos de futebol. Estúdio e estádio. Trabalho voluntário e remunerado. Aprendizado. Ofício fácil, nada difícil. Emoções, antes à flor da pele, substituídas pelo profissionalismo, ceticismo, revelações e desconfiança. Vale a pena como antes? Talvez não, mas ainda encanta. Quem sabe, por um passado que vislumbrava um futuro de um trecho da música do Skank. Volta! Mas só quando puder, futebol! Não és tão indispensável quanto parecia, mas vós sois a distração ilusória perfeita.

 

O encontro do MP4 com o MP10

Comprei um aparelho mp4 e estava todo orgulhoso. As entrevistas agora teriam mais qualidade de som. Poderia caminhar ouvindo música. As corridas vespertinas ao redor do Açude Velho passariam a ser mais estimulantes. Sempre quis ter um walkman, na infância e um CD player na adolescência. Não foi possível. Para a atual geração, pode parecer algo que, de tão fácil, torna-se difícil de entender como isto poderia ser o sonho de alguém anos atrás. Gravar e se ouvir depois, era algo mágico na década de 1980. Meu pai fazia sucesso em Patos, nas viagens de férias, com o seu equipamento nada portátil. Antes de entrar na universidade, ainda considerado “fera 2000 ” no Estadual da Prata , meu irmão já estudante de jornalismo, me emprestou um gravador de fita cassete. Foi o prenúncio de que eu estava escolhendo o curso errado e o curso do rio acadêmico iria ser corrigido quase uma década depois.
O aparelho pretinho e pequeno era o meu xodó. Muitos anônimos e famosos foram entrevistados. Época de aprendizado, de emissoras, programas, colegas, amigos. Em 2011, o São Paulo venceu o Treze no Amigão, pela Copa do Brasil por 3×0. Na chegada do Tricolor, apareceu Marcelinho Paraíba. Ali mesmo no portão que dá acesso aos vestiários, aconteceu uma espécie de minientrevista coletiva. Aproveitei para perguntar se o jogador poderia encerrar a carreira no Campinense, clube que o revelou para o futebol mundial  em 1991. Naquele instante, fazia exatamente 20 anos do seu pontapé inicial. Ele falou que gostaria muito, mas que não dependia somente de si. Na época, o atleta ainda era um menino de 36 anos. Tinha muito gás para queimar e certamente rodou até o marcador de gasolina começar a piscar, na reserva, sempre entre os titulares.
No domingo, 15 de março de 2020, Marcelo dos Santos encerrou a carreira, pela modesta Perilima da Paraíba. Por aqui também fez história no Treze, com o acesso à Série C. Apesar de não ter voltado a vestir a camisa que o apresentou aos gramados, terminou no lugar em que começou: no Ernani Sátyro, onde o seu pai foi o primeiro a balançar as redes de um estádio místico, que assim como Marcelinho é de 1975. Ambos têm justamente a mesma idade. O jogador que, já brilhou vestindo a camisa de grandes times do Brasil, como: Grêmio, São Paulo, Flamengo, Coritiba, Sport, é idolatrado na Alemanha, pelos cinco anos em que defendeu as cores do Hertha Berlin. Lá, sim, ele recebeu uma justa homenagem, com estádio lotado – mais de 25 mil pessoas gritando o seu nome.
Como o ditado alerta sobre santo de casa, em Campina Grande, um estádio praticamente vazio, foi testemunha do seu último ato dentro de campo. Assim como o velho Mp4, o inesquecível MP10, será substituído, mas sempre fará falta com a maestria de sempre. Resta saber quais foram as maiores decepções dessa carreira vitoriosa: a não convocação por Felipão, para a Copa de 2002, em um de seus melhores momentos, ou a falta de entusiasmo e reconhecimento dos torcedores, dirigentes e desportistas locais, em sua despedida. A não ser que tudo tenha acontecido para evitar aglomerações e não propagar o vírus da ingratidão. Quanto ao meu aparelho de gravações, num domingo à tarde, depois do almoço, mergulhou involuntariamente num copo de Pepsi e para sempre se calou.

Acabem com os Estaduais

Acabem com o estaduais. Perdeu o essência, a importância, o brilho e a magia. Foi-se embora junto com o público nos estádios. A manifestação autêntica dos populares assalariados na geral, em plena hora dos miseráveis, remete à lembrança do filme – um clássico do cinema. A despopularização do futebol e sua posterior elitização, a violência, os maus tratos, o desrespeito, a corrupção e improbidade, o desconforto, os riscos, a poltrona de casa, a Netflix, as notificações de novas mensagens, as inúmeras ou escassas opções de lazer, somados a outros fatores, têm tornado as arquibancadas mais e mais vazias nos campeonatos como o Paraibano.
Podem fechar o capítulo do livro. Terminem de vez o serviço. Campinense e Treze praticamente não conseguem levar mais nem mil espectadores aos seus jogos. No clássico, o Ministério Público sugere, obrigando, que cada torcida fique em uma arquibancada diferente, os dirigentes majoram os preços dos ingressos e o torcedor se afasta. Com exceção dos que usam os jogos para confrontos insanos na parte externa do estádio. Pedras arremessadas de fora para dentro, polícia com arma em punho. O que diabos eu vou fazer numa arena dessas? Dar o sangue para o meu time? Reflete o cidadão e a cidadã após o almoço do domingo.
Chegou a hora do fim. Os tempos são outros. A sociedade mudou, para melhor e para pior. Aposentem as máquinas de escrever, as câmeras fotográficas, os orelhões e os seus cartões da Telemar. Não existe mais Boulevard e nem mesmo o Iguatemi resistiu. Fechem as portas e não se arrisquem tanto saindo de casa. É preciso se adaptar, se camuflar e apertar o f5. Mas o que agrava mais o absenteísmo dos torcedores nem sempre é o medo. É opção mesmo. O espetáculo ficou também mais pobre. Por isso temos a sensação de que não devemos pagar mais do que 20 na sombra e 10 na geral. Talvez valha mais do que isso, mas a culpa não é do raposeiro e nem do trezeano se as contas não fecham.
Tenham coragem de realizar a eutanásia nos campeonatos estaduais. Não os deixem viver em estádios vegetativos. Equipes não podem ser laranjas. As que têm condições de sobreviver diante dos perigos e adversidades, precisam se agrupar apenas em competições internacionais, nacionais e regionais. Usemos o ranking e nos adaptemos à realidade. No Sul e Sudeste, eles usam os estaduais como pré-temporada. Aqui, vale mais pelas cotas da Copa do Brasil e do Nordeste. Menos jogos  e maior proximidade com a Confederação Brasileira de Futebol. Talvez assim, finalmente poderemos dar descarga em velhos hábitos de vestiário, de quem age como se estivéssemos na década de 1970, esquecendo de que aqueles sim, eram tempos áureos do esporte, em que a regra não era exceção. Podem dar fim, ao que já acabou efetivamente. Ergam o braço. Tocar o hino da Paraíba não resolve nada.

Futebol no pico do Jabre

Sertão é teste de fogo. É sobrevivência em um ambiente que, de acordo com à sazonalidade, pode ir de hostil a paraíso, em que o básico supre todas as necessidades de uma vida minimalista. Fazer o simples para manutenção de uma vida sem luxos, mas isenta de privações. O sítio do meu avô, em Patos, era assim. A maior fonte de riqueza vinha de um rio temporário, que passava bem próximo.

A mobília era antiga e sem conforto. Quem se importava? O chão, após o almoço, no calor causticante, equilibrava a temperatura corpórea, enquanto as crianças aguardavam o sol baixar, para cumprir a agenda do dia. Nem sempre a paciência permitia que esse intervalo fosse cumprido. Banho no rio, mesmo com a água quente, ignorando os riscos e alertas dos mais velhos, sobre uma possível enfermidade posterior e futebol na caatinga no pingo do suor do meio dia. Traves de madeira, uma longa formação rochosa sob a areia fina. Este era o nosso estádio.

Perpétuo Correia Lima, o Péto, é considerado por muitos torcedores e pela crônica esportiva local, como o maior jogador da história de Cajazeiras. Antonio Marques da Silva Mariz, foi advogado, promotor de justiça e político. Prefeito de Sousa, deputado federal por quatro mandatos, senador e governador da Paraíba. José Cavalcanti da Silva era escritor, professor de história, deputado estadual e prefeito de Patos. Estes três homens tiveram seus nomes imortalizados em uma homenagem fincada no árido e fértil solo sertanejo, nas estacas, fundações, arquibancadas, gramados amarelados e esverdeados e nas traves, que já presenciaram tantos momentos de glória. A placa na entrada mostra para as atuais e vindouras gerações que os nomes escolhidos não foram por acaso.

De tão corriqueiro, falamos repetidas vezes nos estádios e esquecemos de quem deu nome a eles. Quatro títulos estaduais já foram comemorados nestas arenas raiz. Já se vão dez anos sem conquistas desta natureza, mas algo de diferente, sempre aguarda pelos visitantes distraídos. Apesar de o discurso cautelar de medida, ser praxe, geralmente Treze e Campinense caem na armadilha. Acredito que não há teste mais eficaz para saber se um time está pronto para ser campeão, do que vencer nestes três santuários do cangaço esportivo. Parece que lá o tempo não se rendeu à modernidade. Em dias de jogos importantes, Péto ainda faz o aquecimento às 15h, O governador é Antônio. A Paraíba é quem diz: Ronaldo , Humberto e Mariz. E o prefeito se chama José Cavalcanti. Escondam as bolas, trabalhem no vestiário dos visitantes, não se preocupem com a qualidade do gramado, mas sobretudo, joguem aquele futebol de outrora. Mostrem do que são capazes.

Façam equipes competitivas, gastando menos. Quem sabe, uma vez perdida, quando os poderosos vacilarem, farão história novamente. Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa, Sertão de lampiões e marias bonitas, de secas severas e invernos generosos, do Rio da Cruz e do Açude de Jatobá. Quem é que manda no Maxixe? Terra de contrastes, que atrai olhares de admiração. Fazer muito, com poucos recursos. Ir no ponto nevrálgico. Ser pobre e ser rico ao mesmo tempo, como Seu Basílio e Dona Luísa.

Nunca subestimem a força de um sertanejo. Eles têm suas próprias razões para fazerem a escolha certa entre sobreviver e prosperar. Lá, Galo e Raposa, podem até conviver. Porém, em ambiente um pouco separados, por motivos óbvios. Os maiorais precisam mostrar que têm condições para superar os filhos da Morada do Sol, com sua eterna habilidade ao volante, sempre dispostos a subir para a próxima serra rumo ao ápice que é o Pico do Jabre, o lugar mais alto do pódio paraibano.

 

 

Como Tornar um campeonato fácil, difícil?

É simples. Coloque no mesmo grupo três favoritos, com a possibilidade de apenas dois passarem para a próxima etapa. Achou pouco? Aposto que sim. Então, acabe com o confronto direto, fazendo com que os times de uma chave enfrentem apenas os da outra. Treze, Botafogo e Atlético que se virem para conquistar duas vagas. Um ficará de fora e certamente terá ao fim da primeira fase, mais pontos do que o segundo, ou talvez até, do que o primeiro colocado do grupo B. O Campinense parece ter tirado a sorte grande, como no ano passado, na distribuição das equipes. Seria pedir demais um primeiro turno do jeito que está e o segundo, com todos se enfrentando entre si, internamente? Aí teríamos jogos como: Treze x Botafogo, Atlético x Treze, Botafogo x Atlético e Campinense x Sousa. Essa sinuca parece estar mesmo um pouco descaída.
Já pensou, você ganhar uma partida e não servir de muita coisa, se os rivais da chave também vencerem, como aconteceu na primeira rodada? Até agora, só a Raposa e o Dinossauro pontuaram do lado de lá. Se continuar assim, teremos uma semelhança com o quociente eleitoral, quando um candidato com menos votos se elege, ao vencer o que teve mais sufrágios. Essa sensação estranha de injustiça lastreia a promoção do mais fraco em detrimento do mais capacitado. E ainda tem jogador dizendo em entrevista que o Campeonato Paraibano é muito difícil e disputado. Para uns, até pode ser. O nível do futebol brasileiro já foi mais elevado. Aqui na Paraíba também. Agora, a dificuldade vem pelo fator extracampo.  É tanto que o Botafogo , sem muitos problemas, sagrou-se o atual tricampeão. Fácil, fácil.
Às vezes, me pego pensando como é que alguns times participam do campeonato, sem praticamente ter nenhuma aparente fonte de receita capaz de bancar o investimento. Tirando o Belo, aposto que o restante vai penar para, pelo menos, não ter prejuízo. Recorrer aos abnegados, é sempre uma necessidade. Imagine aí a situação daquelas agremiações que batem e voltam da Série A para a Série B? Lembram do calote que o uruguaio Acosta levou em Santa Luzia? Pois é. Está pensando que é fácil honrar com os compromissos assumidos, diante de uma folha de pagamento? O que eu mais vejo é jogador  colocando time na justiça, ganhando causas, às vezes à revelia. Sem contar que tem atleta que para jogar no Treze ou Campinense quer cobrar salários que fogem à nossa realidade. E a base? Cadê as categorias? Pode apostar nos meninos, que sai mais em conta.
O jeito é ver se cai alguma verba do governo estadual, no que se refere ao novo Gol de Placa com formato e nome diferentes, já que foram identificadas algumas fraudes no antigo, para variar. No meio desse imprensado, quem cada vez mais perde a motivação é o torcedor, que se por acaso encontrar um ingresso no chão, vai na bilheteria devolver. Fazer o simples pode ser a saída para o regresso da confiança. Jogar fácil, preferir o básico, nos momentos de dificuldade. Quem será o campeão em 2020? Seja um apostador. Dê um chute. Você pode se dar bem, ou talvez não. Diante de tudo o que o futebol da Paraíba já vivenciou ultimamente, em se tratando de manipulação de resultados pela arbitragem e agora a suspeita de combinação, para se faturar com apostas, é preciso avaliar se vale a pena continuar. Talvez, a saída seja tornar um campeonato difícil, em algo fácil de se conquistar.

O QUE ESPERAR DE 2020?

Não espero nada de tão espetacular ou diferente dos anos anteriores. Tentar enganar o torcedor é tão somente uma demonstração de arrogância. Já se foi a época em que havia os ditos formadores de opinião na imprensa, de uma forma geral, bem como na esportiva. Cada pessoa é, ou deveria ser, suficientemente capaz de elaborar as suas próprias convicções, baseada naquilo que lhe é passado por meio de tantas fontes de informação. Saber filtrar, checar e comparar é fundamental no processo de construção do pensamento. Acredito que o jornalismo tradicional vive uma crise existencial, em virtude do descrédito evidenciado pela abertura das barreiras, antes intransponíveis, que faziam com que as empresas de comunicação assumissem o trabalho de um atravessador, ao enviar a notícia para o consumidor final. Só que no meio do processo há algo que deve ser levado em consideração: a linha editorial.
Não posso garantir, pelo que vi nos amistosos, que Treze e Campinense estão com times fortes, são indicados a ganhar títulos e conquistar acessos em 2020. Está meio estranho. Futebol hoje em dia, com raras exceções, só funciona com dinheiro e muito. Organizar, controlar, planejar e dirigir. São quatro pilares básicos da administração , que eu aprendi enquanto aluno na Universidade Federal de Campina Grande, nos anos 2000. Antigamente, todos faziam times praticamente com a mesma força, gastando pouco e não havia tanta previsibilidade na percepção dos favoritos. Me diga aí, para o Campeonato Brasileiro do ano que vem, por exemplo, quem são os postulantes ao sucesso? Flamengo, Palmeiras, Grêmio, Santos? Quem danado aposta no Vasco campeão? Fluminense, Botafogo, Bahia? É como corrida de Fórmula 1. Tenha o melhor carro e ganhe.
Por aqui, não tem como pensar diferente. O jeito é jogar o favoritismo para o  Botafogo paraibano de novo. Mesmo inconstantes, Galo e Raposa, seguem sendo os prováveis oponentes do Belo. Por mais que tenhamos equipes que, talvez possam dar alguns sustos nos três e um deles faça um campeonato capenga, como o Galo em 2019, é muito improvável que algum azarão incomode os gigantes. Embora eu possa queimar a língua, principalmente com relação ao Sport Lagoa Seca, que despachou com facilidade o anfitrião no Estádio Presidente Vargas, em jogo-treino e o Perilima, que está mostrando muita organização fora de campo –  o que já é um passo imprescindível para o êxito a curto ou longo prazo. Não esquecendo que lá estará o interminável Marcelinho Paraíba, que é um fenômeno , por ainda jogar profissionalmente aos 44 anos, quase 45. Deixando de lado essa estupenda particularidade do jogador, será que isso não demonstra também um pouco da baixa qualidade técnica do nosso futebol? Porque a ordem está bem definida. “Estourou” o moleque? É vendido aos 17 anos. Roda a Europa e quando estiver perto de parar vem para o Brasil. Para queimar a raspa do tacho, vai para o Nordeste.
No passado, em minhas últimas colunas do ano, nos meses de dezembro, tanto nos blogs , como no finado site Agora Esportes, eu sempre demonstrava a minha esperança de que  poderíamos aguardar algo de bom para os nossos times, mas após tantos fiascos, fora e dentro de campo, prefiro seguir o que a obviedade grita em me alertar. Teremos um estadual igual aos outros, sem muitas surpresas. Seremos figurantes nas Copas do Nordeste e do Brasil, no Brasileirão todos ficam onde estão e assim vamos em frente. Pode ser que eu esteja errado e tomara que eu incinere as papilas gustativas, mas não dá para ser inocente e acreditar em Papai Noel sempre.

O verdadeiro ganhador será aquele que começar a cuidar melhor do seu maior ativo – o torcedor, que está cansado de ver tanta cara feia na compra de ingresso, enfrentar fila, ser tratado como um Zé Ninguém, sentar em arquibancada quente, tomar sol na cara, apanhar e, em alguns casos, até dar a vida por um time num esporte que nunca será só futebol. Os torcedores não são mais e – na verdade – nunca foram bobos. Precisam ser tratados como parceiros e não somente servem para colaborar com a sacolinha, quando a quebradeira prevalece. Feliz ano novo. Pessimismo ou realismo? Escolha!

Opinião: A importância de um amistoso

Quando chega essa época do ano, o fenômeno da abstinência se repete. Acabaram todas as séries do Brasileirão e o jeito é ocupar o tempo com as da Netflix. Para quem gosta, domingo à tarde, sem futebol, é um troço chato de se encarar. Não há substitutos à altura. Eu, particularmente, não vejo graça naquelas partidas com amigos de fulano contra amigos de beltrano. A não ser por causa do caráter social, quando o jogo é beneficente, tudo bem, mas não dá para comparar com a velha disputa valendo três pontos. O calendário apertado do futebol brasileiro faz com que o final se encontre com o início da temporada. Quem entrou de férias antes, volta aos trabalhos mais cedo, para se concentrar na estreia do estadual. É quando surgem os amistosos preparatórios.
Não se pode ganhar cancha, entrosamento, ritmo de jogo, apenas com treinos. É preciso testar a garotada e os veteranos, que vão tentar dar o melhor de si para agradar ao professor que estará atento a cada lance. É o momento adequado para se deixar uma boa impressão. Aprimorar a parte física e já ensaiar possíveis, prováveis e futuras parcerias dentro de campo. Identificar as afinidades, ver o companheiro e pelo olhar saber o que se quer. Pensando assim, Treze e Campinense fizeram suas primeiras aparições, com seus novos contratados,  neste final de semana. O Galo venceu com facilidade. Já a Raposa, perdeu por um a zero em Lagoa Seca, para o glorioso Náutico do Retiro.
Aquela falácia de que o que vale é a movimentação e o placar pouco importa, não me convence. O argumento contradiz a afirmação. Uma boa disposição no gramado, será convertida em finalizações. Lógico que tem a questão das dificuldades envolvidas no processo. Geralmente, do outro lado tem jogadores amadores e peladeiros que dão a vida por um momento de fama. Atuam como se fosse final de Copa do Mundo. Existe também, nos profissionais, o medo de se machucar e a gana nunca será igual a de um compromisso oficial. Porém, quem joga, normalmente não gosta de perder. E ainda mais contra adversários inexpressivos. Acredito que o resultado é irrelevante quando se vence, mas quando a derrota surge, é necessário perceber que existe um forte sinal de alerta sendo ligado, mostrando uma possível fragilidade, que pode ser o prenúncio de que o elenco não é tão competitivo como se supunha.
Não sei se foi o caso do Rubro-Negro, mas a verdade é que o autor do gol, em Lagoa Seca, Bruno Renan, poderá contar para os filhos e netos a sua façanha. Só o tempo poderá dizer se o jogo realizado no sofrido tapete do estádio Titão serviu para alguma coisa. Os atletas mais conhecidos da torcida para 2020 são o bom Rafael Ibiapino, o sempre contestado e amado goleiro Pantera, além de Fábio Júnior, que estava parado há sete anos. Provavelmente, como sempre acontece, esse time que vemos agora, tanto no Treze quanto no Campinense, não será o mesmo do campeonato brasileiro. Geralmente á assim.
Para fecharmos o ano e iniciarmos a temporada que se avizinha, teremos mais um clássico no Amigão. Ano passado, foi um a zero para o Galo. Contudo, no Paraibano, o time da Bela Vista foi vice-campeão e o rival quase foi rebaixado. Mais um motivo para não dar tanto crédito a jogo festivo. O Alvinegro teve que se reformular no segundo semestre para permanecer na Série C. Sendo assim, continuo sem ser muito fã de amistoso, mas confesso que ele é um mal necessário. Aliás, por falar nisso, você lembra de algum jogo treino em especial que marcou a sua vida? Aquele golaço numa partida que não valia nada? Sinceramente, não sei, mas como advertia Don Corleone: Mantenha os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda. Adversários sim, inimigos jamais! Pena que o jogo será numa terça à noite, mas mesmo assim está valendo.

Intercâmbio de botafogos

Quando eu vi que alguns dirigentes estavam interessados em mudar o formato de disputa do Campeonato Paraibano 2020, me animei. Entretanto, tinha a questão das datas, cada vez mais reduzidas, para os estaduais, que nos grandes centros estão aos poucos perdendo o restinho da força. Nas províncias pequenas como a nossa, termina sendo até interessante menos tempo, o que representa um prejuízo menor para quem se aventura a colocar time em campo sem fontes de receita capazes de lastrear o sonho do título. O que está em jogo mesmo são as vagas na Série D , Copa do Brasil e Copa do Nordeste. Se não fosse por isso, acho que os velhos campeonatos estaduais já teriam sucumbido ao progresso e à modernidade. Sem mencionar que não tem nada mais chato do que ver dois ou três times revezando o levantamento de taça, como acontece alhures. Se há zebra, geralmente é porque não houve interesse dos favoritos.

Nos resta esperar que a raiva e a frustração do torcedor paraibano tenham sido deixadas para trás. Com exceção, em parte, do botafoguense tricolor, que ainda não digeriu a permanência na Série C.  Tricampeão paraibano incontestável. Pelo menos não podemos falar nada do título de 2019. Os que passaram , não somente os do time possoense,  podem em algum momento ter sido sujados pelo óleo cru da corrupção. Este é o grande diferencial do certame em 2020 – a confiança de que as práticas antigas identificadas pela Operação Cartola, não mais contaminarão a todos os inocentes envolvidos no processo. As maiores vítimas? Lógico que são os torcedores, sofridos, que separam o sacrificado dinheiro do ingresso, sem nunca ver um verdadeiro gol de placa. Página virada. Aguardemos os estádios serem liberados , para enfim a bola rolar, porque a saudade já começa a bater, daqueles domingos à tarde, sentado na arquibancada quente, com um travesseiro trazido de casa, sem a mulher ver, comendo amendoim e churrasco de carne sem procedência conhecida.

Será que já não passou da hora de Treze e Campinense destronarem o rival Botafogo da sua atual posição de zona de conforto? Os times do Sertão precisam parar de nadar na estiagem e morrer na beira da praia. Temos os dois caçulas que acabaram de subir da Segundinha e vão querer pelo menos permanecer. Além da Perilima, que pode se firmar como constante ameaça aos favoritos. O próprio Belo sentirá na pele a perseguição de todos contra um. Tirando isso, nada de novidade. Pode começar logo! Trilar o apito. Times de um grupo , enfrentando os do outro. É a única ideia de campeonato em que não se depende , necessariamente, somente de si para se chegar ao êxito esperado. Já pensou se todos os jogos forem vencidos por integrantes de um lado? Teríamos um grupo com as equipes somando 24 pontos e os do outro, com 0. Iríamos apelar para os critérios de desempate. Por que não termos agremiações jogando contra si dentro da chave no primeiro turno e no segundo, enfrentando as da outra? Dessa maneira teríamos todos os confrontos possíveis. Me pergunto isso desde o ano passado. O Cariocão já foi assim. Eu lembro. Diz a lenda que é o mais charmoso do Brasil. Pode ser que o melhor seja deixar tudo como está. Afinal, o Paraibano também tem o seu charme. E se rolasse um intercâmbio entre os botafogos? O do Rio jogasse aqui e o daqui jogasse lá? A zebra da década de 1980, no Maracanã, se repetiria? Segue o líder.