O adeus a Valter Cruz

Estava tudo programado para a realização de um torneio no estádio Teixeirão, em Santa Rita, no dia sete de julho do fluente ano, como forma de levantar fundos e alimentos não perecíveis para o ex-atleta profissional Valter Cruz, que vinha internado em um hospital com sérias complicações em sua saúde.

As equipes masters do Auto Esporte Clube, do Botafogo Futebol Clube, do Santos Tereré Futebol Clube, Santa Cruz Recreativo Futebol Clube e de outras equipes iriam se enfrentar naquele domingo destinado a solidariedade e a fé cristã, sentimento que o brasileiro nutre pelo seu semelhante.

Mas o grande arquiteto do universo, em sua infinita e imensa misericórdia, resolveu acabar com o sofrimento do ex-atleta e seus respectivos familiares, convocando Valter Cruz para jogar na lateral direita do time celestial, no qual não há cartões amarelos nem vermelhos, e predomina o azul e o branco das nuvens.

Os organizadores do torneio solidário foram pegos de surpresa, ficaram entristecidos, mas inabalados com o seu sentimento de solidariedade com o ex-companheiro de gramado e respectivos familiares. Cancelaram sim as partidas do torneio, mas não cancelaram o sentimento altruísta de solidariedade e fé cristã .

E logo cedo daquele domingo que o Brasil iria conquistar mais uma Copa América, os amigos, torcedores, ex-jogadores e companheiros das quatro linhas, estacionavam os seus veículos na porta do Teixeirão e deixavam em cima de uma mesa improvisada gêneros alimentícios não perecíveis. Outros preferiram levar a sua ajuda em dinheiro, tudo sendo entregue aos amigos organizadores daquele bonito gesto humanitário.

Quando já tinha um número expressivo de amigos e admiradores de Valter Cruz, foram todos encaminhados para o centro do gramado do estádio, formou-se um enorme círculo de irmãos, deram as mãos e passaram a rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria pela intercessão do falecido.

Em ato contínuo foram todos em direção ao velório e ao sepultamento. Mais uma vez os ex-companheiros demonstraram a sua gratidão e consideração ao amigo, quando na entrada do cemitério ficaram perfilados e com as bandeiras do Auto Esporte, Santa Cruz e do Botafogo estendidas. O ex-goleiro Inácio Montenegro, conhecido como “Naná”, com bastante emoção fez uso da palavra em nome dos atletas, um dos filhos de Valter Cruz, com lágrimas nos olhos, também falou, agradecendo aquela solidariedade dos amigos de seu pai.

Missão cumprida, um grupo resumido foi para um local agradável almoçar, para em seguida cada um voltar para as suas obrigações familiares, pois era um dia de domingo. Na minha mente ficou e ainda perdura aquele gesto emocionante dos ex-jogadores e amigos. Por outro lado, não pude deixar de registrar a ausência dos dirigentes dos clubes, principalmente daqueles em que Valter Cruz defendeu as suas cores, como também não estava presente nenhum representante da Federação Paraibana de Futebol.

Sei que o fato ocorreu em outra cidade, e em um dia de domingo, mas não custava nada mandar um representante. Até porque, em minha linha de raciocínio, existe futebol sem imprensa, existe futebol sem dirigentes, existe futebol sem federação, existe futebol sem tribunal desportivo e também existe futebol sem árbitro; só não existe futebol sem a sua matéria prima e ator principal: o jogador!

Você se lembra do craque Odon?

Ele nasceu na cidade de João Pessoa no dia três de novembro de 1950, ano em que o nosso país deixou de conquistar, em pleno Maracanã, o seu primeiro título de campeão mundial ao perder para o selecionado do Uruguai por dois tentos a um.

Os seus pais resolveram batizá-lo com o nome de Odon Marques da Rocha, mas ele ficou conhecido como o meia-direita “Odon”, jogador diferenciado que conduzia a bola com ambas as pernas; driblava com maestria e objetividade, finalizava com precisão e costumeiramente deixava os seus companheiros na cara do gol.

Ainda muito jovem ele despontou como meio campista nos campos e times amadores da nossa capital, em destaque nas equipes do Bairro da Torre, onde iniciou a sua carreira com a camisa rubro-negra do então temido pássaro preto da torrelândia, o Íbis Futebol Clube.

No final da década de sessenta, Odon foi contratado pelo Botafogo Futebol Clube e com a camisa alvinegra passou quase uma década como titular da equipe, ao ponto da imprensa e torcida se acostumarem com a escalação dele e de mais dez atletas. Era uma época em que as equipes adversárias normalmente designavam um atleta específico para tentar neutralizar as suas inteligentes e bonitas jogadas.

Quando saiu do Botafogo Futebol Clube, em 1975, o nosso homenageado foi reforçar o Campinense Clube na disputa do campeonato brasileiro, e depois foi para a equipe da Sociedade Desportiva Borborema, o Gavião; equipe que surgiu de uma dissidência do Campinense Clube e chegou a ser vice-campeã paraibana, graças ao seu plantel que possuía jogadores como Odon, Tinteiro, Bispo, Mágno, Sílvio e tantos outros.

No início de sua carreira, ele teve uma breve passagem pelo Clube Náutico Capibaribe, não ficando nos Aflitos por questões salariais e o seu apego ao estado de origem. Várias equipes de outros estados tentaram adquirir o seu passe.

Por indicação do ponteiro esquerdo Ferreira, seu ex-companheiro de Botafogo – PB, Odon ainda tentou a sorte no Santos Futebol Clube, time no qual treinou por um tempo e depois foi jogar no estrangeiro, precisamente na equipe do  Alianza Fútbol Club da cidade de El Salvador.

Retornando ao Brasil, Odon jogou no Clube Sportivo Paysandu e no Brusque Futebol Clube,  equipes do estado de Santa Catarina, e finalmente encerrou, com apenas 31 anos, a sua carreira no Jabaquara Atlético Clube da cidade de Santos – SP.

Ao pendurar as suas famosas chuteiras, Odon passou a gerenciar uma escolinha para crianças carentes e em situação de risco, na cidade portuária de Santos, chegando a revelar vários jogadores para equipes profissionais.

Hoje ele retornou a morar em sua cidade natal, João Pessoa, palco inicial de suas precisas jogadas, sendo constantemente visto nos campos de peladas de veteranos, onde visita os amigos de um passado em que não se ganhava dinheiro jogando futebol, mas se jogava bonito, pra frente e utilizando um raciocínio lógico que não encontramos no futebol de hoje.

Para nós torcedores, cronistas e desportistas, ficou a certeza de que Odon Marques da Rocha, o popular “Odon”, escreveu o seu nome com tintas douradas e perpétuas na brilhante história do futebol paraibano.

Você lembra do Estrela do Mar?

Antigo celeiro de craques de futebol da capital, o Estrela do Mar Esporte Clube foi fundado no seio de uma ordem religiosa católica existente na Matriz do Rosário, no tradicional Bairro de Jaguaribe, precisamente no dia 06 de maio do ano de 1953.

O religioso e abnegado Frei alemão Albino Kleine, um dos fundadores e maiores incentivadores da agremiação, soube aproveitar todos aqueles jovens que frequentavam a igreja aos domingos e direcioná-los ao campo de futebol que sabiamente construíram por trás da igreja e ao lado da Avenida Vasco da Gama.

O nome Estrela do Mar foi uma homenagem a uma revista religiosa que circulava na paróquia e possuía esse nome, já as cores azul celeste e branca homenageavam as vestes da santíssima Virgem Maria. Ali se praticava mais do que futebol, pois havia todo um trabalho social e educacional com os adolescentes. Em pouco tempo jovens de outros bairros começaram a frequentar aquele espaço prazeroso e respeitado na cidade.

Em 1956 o clube participou do campeonato de amadores promovido pela federação – não havia segunda divisão naquela época -, sendo campeão invicto da temporada. Dessa jornada participaram: Brandão, André, Pinheiro, Hélio, Breno Formiga, Gilberto Cara de Gato, Hermes Taurino, Caju, J. Heráclito, Roberto Biribita, Izinho, Valdecir Pereira, Adjamir, Carrinho e Lauro Almeida.

Em 1957, já sendo um dos integrantes nas competições do estado o Estrela do Mar registrou o seu moderno estatuto nas páginas do jornal A União. Em 1959 de forma brilhante o clube conquistou o campeonato paraibano de profissionais. Esse título lhe deu o direito de disputar a então “Taça Brasil” representando o nosso estado. Foi o ápice de um projeto simples que pensava apenas em proporcionar aos jovens a prática do esporte e que com o tempo e a organização deu vôos altos, aliás, altíssimos.

O Estrela do Mar foi tri-campeão aspirante nos anos 58/59/60. No ano de 1957 o clube passou a disputar o Campeonato Paraibano de Profissionais. Foi vice-campeão paraibano em 1958, e, em 1959, sagrou-se campeão estadual, utilizando nessa temporada os seguintes atletas: Jola, Carrinho, Davi, Gilberto Cara de Gato, Tem, Gilberto e Aderbal Pitombeira, Hermes Taurino e Teófilo Luna, Coelhinho, Caju, Lúcio Câmara, Izinho (Antenor Pereira), Emilson Adjamir, Valdecir Pereira e Celso Piaba.

Em sua gloriosa participação na Taça Brasil, embrionário do atual campeonato brasileiro e a participação de dezessete campeões estaduais, o time de Jaguaribe venceu no primeiro jogo a equipe do ABC de Natal, por dois tentos a um, na partida realizada em nossa capital. Quando foi no jogo de volta, a equipe potiguar venceu pelo escore de cinco tentos a um e desclassificou o time paraibano, já que a competição era no sistema eliminatório, com jogos de ida e volta.

Nos anos seguintes a equipe deixou as competições oficiais, e nas décadas de 70 e 80 formou grandes times de futebol de salão. Para nós torcedores, cronistas e desportistas ficou a certeza de que o Estrela do Mar Esporte Clube escreveu o seu nome com tintas douradas e perpétuas na brilhante história do futebol paraibano.

VOCÊ SE LEMBRA DE DÁU?

Ele nasceu no dia vinte e nove de outubro de 1955 na multicultural cidade de Salvador – Bahia, onde a religião, a música, a literatura e principalmente o futebol, transpiram e estão presentes no dia-a-dia de seus habitantes. Os seus pais resolveram batizá-lo com o nome de Adaílton Santos da Conceição, mas foi com o apelido de “Dáu” que ele ficou conhecido e rodou o Brasil.

Desde criança aquele menino moleque demonstrava as suas habilidades e domínio com a bola de futebol que o tempo e os treinamentos iriam aperfeiçoar. E foi no tradicional Esporte Clube Vitória que ele ingressou na antiga categoria dente de leite, passou para o infantil e rapidamente foi promovido ao juvenil. Com apenas catorze anos de idade, Dáu foi campeão brasileiro pelo rubro-negro baiano, em uma competição realizada no estádio Maracanã entre Bahia, Santos, Flamengo e Vitória.

E para a nossa alegria, na metade da década de setenta, precisamente em 1976, o Auto Esporte Clube resolveu montar uma forte e competitiva equipe para disputar o campeonato paraibano de profissionais. Vários jogadores da terra de Jorge Amado vieram reforçar o clube do povo, como Félix, Ênio, Anselmo, Neínha, Espinheira, Cabinho, Catú e o jovem Dáu.

Mesmo sendo muito novo e no meio desses jogadores experientes, Dáu mostrou para o torcedor paraibano que tinha vindo para ser titular, se destacar e construir uma carreira em clubes maiores. Quem viu esse meio campista jogar sabe do que eu estou falando; a bola era tratada como se fosse um membro da família, tamanha era a cumplicidade, sincronização e harmonia. Ao final daquele ano, ele foi considerado a grande revelação da competição e passou a ser elogiado por todos, inclusive pela torcida adversária.

Mas, naquela época o Botafogo Futebol Clube caminhava para ser tetra-campeão, 75, 76, 77 e 78, e não media esforços para adquirir os craques da região. Dáu e Anselmo foram contratados e o nosso homenageado foi peça fundamental justamente naquele timão de 1977, que tinha em seu plantel excelentes jogadores.

Dau me confidenciou que o nível técnico era tão bom que chegou a jogar com pequenas dores musculares, sem avisar ao técnico nem ao médico do clube, pois outro baiano bom de bola tinha chegado para o elenco, de nome Magno, e que apenas esperava uma oportunidade para entrar no time e não sair mais. E foi o que aconteceu logo em seguida com a venda de Dáu para o sul do país.

O Botafogo Futebol Clube tinha acabado de realizar uma excelente competição nacional, chamando a atenção de vários clubes de outros estados, o que resultou na transferência de Fantick, lateral esquerdo, Anselmo, centroavante e Dáu, meio campista para o tradicional Comercial Futebol Clube da cidade de Ribeirão Preto, então forte equipe do interior paulista.

O futebol do bom baiano não parava de crescer, sendo ele convocado para integrar a seleção do interior paulista, e juntamente com o jogador Dr. Sócrates – que tinha acabado de se despedir do Botafogo Futebol Clube, equipe também da cidade de Ribeirão Preto – receber a cobiçada chuteira de ouro, premiação destinada aos atletas destaques do interior de São Paulo.

Depois de sua vitoriosa passagem com a camisa do Comercial Futebol Clube, Dáu foi para a Associação Atlética Francana, de Franca, depois para o Rio Branco Esporte Clube, de Americana, e o Paulista Futebol Clube, da cidade de Jundiai, equipes tradicionais do interior paulista. O nosso craque também jogou no Atlético Clube Goianiense, do estado de Goiás.

Retornando ao nosso estado, Dáu vestiu novamente a camisa do Auto Esporte Clube, do Alecrim de Natal, do Esporte Clube Cruzeiro, da cidade de Arapiraca-AL. O nosso meio-campista também teve uma passagem pelo Guarabira, Esporte de Patos e finalmente encerrou a sua carreira pendurando as suas famosas chuteiras no Santa Cruz Recreativo Esporte Clube, da cidade de Santa Rita.

Hoje, o nosso homenageado que reside e trabalha na Prefeitura Municipal de Santa Rita – PB, administra  o estádio de futebol local. Por dois anos consecutivos, Dáu participou e foi homenageado no Encontro Paraibano de Desportistas, que anualmente é realizado em nossa capital no mês de maio.

Para nós torcedores, desportistas e cronistas paraibanos, ficou a certeza de que Adaílton Santos da Conceição, o popular “Dáu”, escreveu o seu nome com tintas douradas e perpétuas na brilhante história do futebol paraibano.

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VOCÊ SE LEMBRA DE VANDINHO?

No dia 11 de março de 1950, na então arborizada e tranquila cidade de João Pessoa, precisamente no Bairro da Torre, antigo celeiro de craques de futebol, nasceu Evandro Gomes da Silva, o popular ponta esquerda “Vandinho”.

Ainda garoto o nosso homenageado foi descoberto como uma revelação com a bola nos pés, e logo foi levado para jogar no Santos Futebol Clube, equipe de nossa capital que era comandada pelo desportista Valter Marsicano, o saudoso “Tereré”.

Possuindo um futebol inteligente, objetivo e ofensivo, despertou a atenção das equipes denominadas grandes, e em fevereiro de 1972 ele deixou o Santos Futebol Clube e estreou com a camisa de número 11 do glorioso Galo da Borborema. Vandinho, ao lado de jogadores talentosos como Assis Paraíba, Josa, Haroldo e Adelino, conseguiu realizar excelentes campanhas pelo time do Treze Futebol Clube, chegando a ser o artilheiro do campeonato estadual de 1973 com a marca de 17 gols. O título de campeão só não foi conseguido naqueles anos por causa da performance do Campinense Clube.

No início de 1975, Vandinho foi negociado com o Paysandu Sport Club, equipe tradicional de Belém do Pará, onde fez uma excelente temporada sagrando-se vice campeão daquele estado. Ainda hoje ele é lembrado pelos torcedores do Papão do Curuzú da terra da charmosa Fafá de Belém.

Na temporada seguinte, Vandinho realizou um sonho antigo em sua vida: vestir a camisa do Botafogo-PB, sagrando-se tri-campeão estadual com as conquistas seguidas de 76, 77 e 78.  Nos anos de 79 e 80 ele foi vice-campeão do estado. Foram anos de muita alegria e vitórias na Maravilha do Contorno.

O hábil ponteiro esquerdo também jogou com as camisas do Fortaleza, Sampaio Correia, Ceará, Auto Esporte e Nacional de Patos. Em todas essas equipes ele não decepcionou, ao contrário, contribuiu com os seus dribles curtos, chutes fortes e principalmente com os cruzamentos precisos e certeiros.

Com a camisa tricolor do Santa Cruz de Santa Rita, cidade em que residiu por vários anos, Vandinho pendurou as suas famosas chuteiras, jogando com amigos e também experientes companheiros como o volante Vavá, ex Campinense Clube.

A nossa crônica esportiva, em especial o narrador Eudes Moacir Toscano, carinhosamente apelidou o nosso homenageado de Renato Aragão, em virtude de sua compleição física lembrar muito o comediante global, que naquela década fazia muito sucesso na televisão. E para a nossa alegria “Vandinho”, que hoje reside no bairro do Geisel, compareceu ao II Encontro dos Desportistas Paraibanos, abraçando e sendo fotografado por muitos.

Para nós torcedores, desportistas e cronistas paraibanos, ficou a certeza de que Evandro Gomes da Silva, o popular “Vandinho”, escreveu o seu nome com tintas douradas e perpétuas na brilhante história do futebol paraibano.